segunda-feira, 18 de maio de 2015

"Haverá paraíso
sem perder o juízo e sem morrer?
Haverá paradeiro
Para o nosso desejo
Dentro ou fora de nós?"

(Arnaldo Antunes)

sexta-feira, 15 de maio de 2015

"Aquele teu abraço
acarinhou todo o pranto,
aconchegou meu peito
que antes era breu.
Lhe redescobri no brilho dos teus olhos
quando eles vieram de encontro a mim.
Nosso reencontro foi um convite ao mar dos desejos.
Lhe quis naquele instante
e hoje lhe quero mais que ontem, ainda sem saber se o amanhã nos caberá."

(Laíra Alves, maio de 2015)

quinta-feira, 14 de maio de 2015

"Escrevo aos pierrots sem colombinas,
aos sedentos de calor,
aos poetas sem futuro,
aos que choram ao telefone e frente às cartas amareladas pela saudade,
aos bêbados de amor
e aos equilibristas do mundo.
Recebam meus versos como a um afago.
Eles nada valem,
mas lhes oferto ainda assim."

(Laíra Alves, 2014)


quarta-feira, 13 de maio de 2015

"E de lá do outro lado do céu
Alguém derrama num papel
Novos poemas de amor"

(Paulinho Moska)
"Ocupo muito de mim com meu desconhecer.
Sou um sujeito letrado em dicionários
A fim de desconhecer a minha ignorância
Mas ela só acrescenta."

(Manoel de Barros)
"Minha alma dança uma valsa triste.
Sinto lágrimas brotarem destes meus olhos grandes.
Tenho medo do fim enquanto vejo o teu adeus desta dança,
bordada pelas imagens de saudade da tua irmã.
Pra onde foram os teus sonhos?
Terão saudade de mim quando for lhe encontrar?
Me ofertarão flores?
Me escreverão cartas, mesmo quando não poderei mais respondê-las?
Me interrompem por futilidades 
e acabo percebendo que os minutos são raros demais pra nós, querida.
Perdoe-me pela espera.
Preferiria estar contigo,
ouvindo de ti histórias bonitas sobre as tuas vidas em outros corpos e em outras épocas,
também na companhia de um vinho bom.
Sei que não virá.
 
Não me iludo.
E não esperarei como a Godot.
Os relógios bêbados e tortos ainda me dão medo.
Temo terminar como você ou como a outra Flor, bela.
Paro mais uma vez, mas agora porque os pensamentos Nele me invadem.
Penso nos desejos febris,
na saudade do que não foi,
nos beijos doces que roubou
e em nosso efêmero querer.
Não lhe esquecerei,
nem poderei também me esquecer daquela terça-feira de setembro que passei ao lado dele.
Há beleza na dor.
Tua irmã nos deu toda a saudade que sentia de ti.
Darei a ele, talvez, algumas memórias para tecer um novo poema."

(Laíra Alves, novembro de 2014)

(Para Maria Flor)

"Em meus braços carrego esta delicada flor
e em silêncio contemplo teu sono.
Imagino que agora encontra o príncipe pequenino
e dele ouve histórias sobre rosas, baobás, raposas encantadoras e planetas distantes.
Tuas pétalas trazem a pureza de Exupéry,
mas há em ti a força de Florbela Espanca que carregas no nome.
Com tal força enfrentará futuros invernos
e assim verás lagartas solitárias que se transformarão em belas borboletas.
És uma flor de ternura e amor.
És poesia em flor."

(Abril de 2015)


terça-feira, 12 de maio de 2015

"Ontem estive em Nova York.
Era cinza e 4 de abril de 2036.
Dialoguei longamente com o silêncio.
Estava imerso nas profundezas de minha alma, e nada encontrava, além da devastadora ausência que corroía e dilacerava o contar dos relógios, e o grito silencioso dos devaneios.
Onde estão todos? Para onde foram?
Quais suas histórias e anseios?
O caos, alastrado pelas ruas da cidade, traz os ratos para alimento de meu estômago vazio e do meu sádico prazer.
Só encontro a beleza em minha alma quando meu pensamento é tomado pela ilusão das imagens da poesia do nosso fazer amor nas madrugadas,
das flores de sutileza em campos de ternura, em meio ao teu olhar
e a feitura das cantigas de ninar
O mais é nada.
É breu.
É nuvem chuvosa que deságua na solidão,
em mim,
em mil eus,
loucos
e febris.
Tudo o que tenho é a ausência."

(Laíra Alves, abril de 2014)

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Flor bela que me espanca...

"Flor bela que me espanca não pode ser poema.
De Florbela Espanca é a flor que me seduz e me esbofeteia.
O que sinto quando nasce o sol é viver sem teu amor.
Esperarei o sol se Portugal me achar bela com o meu amor em chamas.
Por meu amor eu grito e eu morro e a cinza que restar será de amor e fogo.
Florbela que me espanca é tarde e a noite vem com olhos de oceano e peito ardendo em chamas, memórias e solidão.
Sou sua amada. Tens alma irmã, não posso amar-te.
Sou teu amado. Tens alma irmã, não posso amar-te.
Vida, vida..."

(Ivan Antonio)

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Retratos do artista quando coisa

"Uso um deformante para a voz.
Em mim funciona um forte encanto a tontos.
Sou capaz de inventar uma tarde a partir de uma garça.
Sou capaz de inventar um lagarto a partir de uma pedra.
Tenho um senso apurado de irresponsabilidades.
Não sei de tudo quase sempre quanto nunca.
Experimento o gozo de criar.
Experimento o gozo de Deus.
Faço vaginação com palavras até meu retrato aparecer.
Apareço de costas.
Preciso de atingir a escuridão com clareza.
Tenho de laspear verbo por verbo até alcançar o meu aspro.
Palavras têm que adoecer de mim para que se tornem mais saudáveis.
Vou sendo incorporado pelas formas pelos cheiros pelos sons pelas cores.
Deambulo aos esgarços.
Vou deixando pedaços de mim no cisco.
O cisco tem agora para mim a importância de Catedral."


(Manoel de Barros)