terça-feira, 30 de agosto de 2011

Retratos do artista quando coisa

"Uso um deformante para a voz.
Em mim funciona um forte encanto a tontos.
Sou capaz de inventar uma tarde a partir de uma garça.
Sou capaz de inventar um lagarto a partir de uma pedra.
Tenho um senso apurado de irresponsabilidades.
Não sei de tudo quase sempre quanto nunca.
Experimento o gozo de criar.
Experimento o gozo de Deus.
Faço vaginação com palavras até meu retrato aparecer.
Apareço de costas.
Preciso de atingir a escuridão com clareza.
Tenho de laspear verbo por verbo até alcançar o meu aspro.
Palavras têm que adoecer de mim para que se tornem mais saudáveis.
Vou sendo incorporado pelas formas pelos cheiros pelos sons pelas cores.
Deambulo aos esgarços.
Vou deixando pedaços de mim no cisco.
O cisco tem agora para mim a importância de Catedral."


(Manoel de Barros)

quinta-feira, 19 de maio de 2011

"Como eu sou o oráculo, e sei tudo sobre todas as coisas, eu gosto muito do ‘e se…?’ .

Gosto muito do alto também. É o único jeito de perceber todas as coisas que estão acima, que não enxergamos quando estamos embaixo; embaixo do nosso próprio guarda chuva.

E se os seres humanos gostassem mais da sua própria companhia? Se gostassem mais a ponto de gostar mais de si mesmo do que da companhia de outras pessoas?

Alguém muito surpreendedor me fez observar a filosófica simbologia do guarda chuva. É algo que te deixa sozinho, que aflora o egocentrismo em cada um. É um objeto simples, que diante de uma situação inoportuna ( a chuva ), deixa as pessoas mais individualistas, mais autônomas, mais autossuficientes, egoístas até. Mas até que ponto o ser humano basta-se a si mesmo?… (observe a redundância! )

E se uma chuva catastrófica caísse enquanto você está sozinho em sua casa, de noite?! Imagine agora que enquanto isso acontece, a energia elétrica acaba…

E então… Você ainda se basta?

A sua própria companhia te agrada?

Os seus pensamentos ( que na verdade é o que chamo de ‘Você’!), são suficientes para te deixar tranqüilo?

A pergunta é: até que ponto os seres humanos são completos com a própria companhia?

Seríamos seres menos solitários se aceitássemos quem somos, e achássemos, a nós mesmos, suficientemente interessantes a ponto de não necessitar-mos de mais nada, ou ninguém para sentir-mo-nos confortáveis?

( Releia, Reflita, não tenha pressa… )

Ou, seríamos pessoas mais ainda egocêntricas se gostássemos mais de quem somos?

Porque essa busca desenfreada de alguém, ou algo, que te faça plenamente feliz ( seja lá o que isso signifique ), se a única coisa -ou pessoa, no mundo, que pode realmente ser exatamente como queremos somos nós mesmos?!

Aonde é que começa ( ou termina ) a nossa autossuficiência? Como uma árvore, que vem da semente, e tudo o que ela precisa pra se desenvolver é da natureza…

Somos serem imperfeitos. Estamos longe, muito longe, da tal racionalidade. Ao mesmo tempo que somos egocêntricos, somos dependentes. Ao mesmo tempo que somos autossuficientes, somo incompletos. Na mesma Chuva, se o que temos é um guarda chuva, temos sucesso; Se é uma casa vazia, temos fracasso.

Na verdade, o que realmente somos é o mais perfeito fracasso da perfeição. Somos uma metamorfose que acontece, sem o estágio Borboleta a se chegar.

Felizes mesmo são as borboletas; que podem voar!"

(Larissa Carvalho)
http://lgcarvalho.wordpress.com/

segunda-feira, 25 de abril de 2011

"Eu quero ver,
 rever,
transver,
milver
tudo que não vi. "

(Caio Fernando Abreu)

terça-feira, 19 de abril de 2011

Esta é mais uma postagem influenciada por Miguel Borba (docente da Universidade Federal da Bahia), onde compartilho uma lembrança linda da minha infância.
A atividade proposta foi para que levássemos pra sala cantigas de ninar para avaliar os métodos de criação dos pais na nossa época.
Remexendo minhas memórias encontrei um poema que meu pai fez pra mim quando bebê (em 93) que agora compartilho com vocês.


"Acorda minha filha no meio da noite
que faço eu para te consolar?
canto uma cantiga mas de Chico Buarque
só quando fores grande entenderás
Balanço em meus braços, mas o choro não passa
então mudo a fórmula.
Dorme, minha filha
cantiga minha não te calará
sou tão sem ritmo
e se cantar alto
tua mãe cansada pode acordar.
Recito baixinho um poema de Quintana
e um pequeno verso de Drummond
Adormece minha filha
alheia aos problemas do mundo
e a um novo dia que está pra chegar."

(Um poema de ninar; São Paulo; 1993)

quarta-feira, 13 de abril de 2011


















No último dia 5 (terça-feira) foi comemorado o 4º aniversário da Cidade do Saber (Instituto sócio-cultural localizado em Camaçari, com a finalidade de promover a inclusão social através das artes e da educação).
 O evento premiou alguns artistas em destaques desta longa e produtiva jornada, e dentre os premiados estávamos nós, Cia. Teatro Pavê, agradecidos e honrados pela homenagem.
Os 'frutos' de um trabalho árduo começam a aparecer, e com eles suas conquistas...
Que os deuses continuem a nos abençoar e dar mais farinha para esse pirão de talento!

‎"Ocupo muito tempo de mim com meu desconhecer.
Sou um sujeito letrado em dicionários
a fim de consertar a minha ignorância,
mas só acrescenta."

(Manoel de Barros)

sábado, 9 de abril de 2011

Salvador, abril de 2011


Exmo.s Sr e Sras. Da sociedade contemporânea,

Venho por meio desta explicitar minha atual reflexão referente à s práticas de punição de menores e ao grande sistema carcerário deste país.
Será que podemos apontar um único culpado pelas atrocidades cometidas por crianças e jovens, que encontram no crime e no tráfico uma saída de emergência à curto prazo para obterem benefícios econômicos, os quais seriam obrigações dos poderes executivo, judiciário e principalmente legislativo?
Na verdade sinto que a realidade cruel deste país não atinge somente à meus vizinhos, esta realidade está presente em meu cotidiano, principalmente porque ao mesmo tempo que me sinto refém da violência urbana me vem também o peso da culpa de colocar nos cargos transformadores cidadãos dotados de uma falsa moral (quase teatral), dotados de um imenso poder de convencimento, gastando fortunas em suas campanhas publicitárias, esquecendo-se dos primordiais deveres a cumprir para que a nossa sociedade possa gozar do direito primordial à educação, segurança pública, saúde e algum meio de educação voltada para uma consciência em relação ao meio ambiente e a moral.
É necessário criar métodos de punição, isto é fato, entretanto, esta teoria não justifica o abuso do poder dos responsáveis pela segurança.
O que realmente quero pôr em questão é: qual é o nosso papel e principalmente quais são as ações afirmativas que podemos individualmente fazer para erradicar os inúmeros problemas sociais, quase todos causados pela falta de consciência moral e educacional?
Gostaria de obter respostas, ações na verdade, de cada um que é direta ou indiretamente afetado pela questão desta problemática.

Abraços esperançosos e otimistas,



Laíra Alves
Bacharelando Interdisciplinar em Artes
3° semestre


(Atividade solicitada pelo docente Miguel Angel García Bordas, no componente curricular Ética e educação, pela Universidade Federal da Bahia, a fim de debater as cartas de Jorge Amado, no livro Capitães da Areia)

terça-feira, 5 de abril de 2011







Em nome da Cia Teatro Pavê agradeço a presença de todos que nos prestigiaram dias 02 e 03 de Abril no Teatro Cidade do Saber e aos que participaram direta e indiretamente, com suor, apois financeiros e morais, vibrações positivas e aplausos. 

"Farinha pouca?! Põe mais água no pirão!

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Vou-me embora pra Pasárgada

"Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada."

(Manuel Bandeira)
Texto extraído do livro "Bandeira a Vida Inteira", Editora Alumbramento – Rio de Janeiro, 1986, pág. 90

domingo, 24 de outubro de 2010

O parir de um texto

Busco relações entre mundos distintos, unindo o ambiente urbano-popular dos bares (com cheiro de pinga) e as centenas de cores produzidas a partir de uma música que leio ao olhar o mundo multicolor.
Procuro as sensações da palavra ao gozo da inspiração quando busco um sentido híbrido e verdadeiro ao som do Zeca Baleiro numa madrugada de sexta-feira, me vindo à cabeça a "venus de Milus acenando tchau".
Palavras num leque de inspirações desconexas na imensa tentativa de produzir algo que agrade à gregos e baianos.
A ousadia se mostra mais presente no sentido fálico do que neste momento em que busco um coquitel de idéias..